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Página arquivada em: Notícias “Com 30 por cento dos votos contados, duas horas após o fecho das urnas na Rússia, um glorioso Medvedev já festejava, ao lado de Putin, a vitória das presidenciais russas. Medvedev, 42 anos, que trabalha há 18 anos ao lado de Putin, e que todos acreditam que irá prolongar o seu poder, apareceu sorridente ontem ao lado do ainda Presidente no concerto marcado para as celebrações na Praça Vermelha. Enquanto a multidão ecoava: “Putin, Putin”.
Vestido com um blusão de cabedal preto e calças de ganga, Medvedev, que será o primeiro presidente russo criado na era pós-soviética (tinha apenas 26 anos em 1991), afirmou: “As eleições decorreram em respeito com a Constituição. Estamos a traçar o nosso caminho do desenvolvimento, de acordo com a política dos últimos anos”.
O comunista derrotado, Gennady Zyuganov manifestou desde já irregularidades no escrutínio, apesar de ainda não ter avançado com um protesto oficial. E as ONG presentes nos locais de voto criticaram também alguns aspectos, nomeadamente, em certos locais, a pressão que as populações sofriam para ir votar.
Segundo a empresa de sondagens estatal VTsIOM, Medvedev pode chegar aos 70,1 por cento. Mas nas contagens oficiais, duas horas depois do fecho a vitória chegava-lhe com 66,5. ”
02.03.2008 - 20h50, In PUBLICO | Foto Ria Novosti/Reuters
Putin quer todos nas urnas a legitimarem Medvedev
“Já bem assegurada a vitória certa de Dmitri Medvedev, candidato escolhido pelo Presidente russo, Vladimir Putin, para lhe suceder, o Kremlin tem ainda um objectivo por cumprir: garantir hoje uma participação nunca abaixo dos 65 por cento no sufrágio que mais analistas dizem ser uma “coroação” do que “eleições presidenciais”.
“Isto não é uma eleição em que as pessoas elegem, não é uma questão de escolha”, diz a directora da organização não-governamental Transparência na Rússia, Ielena Panfilova, referindo-se à ausência de facto de oposição a Medvedev.
O primeiro vice-primeiro-ministro, a quem as sondagens dão 72 por cento dos votos, não enfrenta, afinal, mais do que dois candidatos alinhados com o Kremlin - o ultranacionalista Vladimir Zhirinovski e o desconhecido Andrei Bogdanov - e o líder dos comunistas, Gennadi Ziuganov, cuja bancada parlamentar pouco ou nada tem contrariado os planos da maioria putiniana na Duma.
Afastada da corrida com argumentos técnicos ou um muro de dificuldades, a oposição liberal - pouco expressiva e com acesso diminuto aos canais de expressão - não conseguiu pôr um único representante no boletim de voto. “Sabemos bem que não podemos fazer nada para mudar isto. Mas há outras coisas que temos de fazer”, sublinhou o antigo campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, líder do Outra Rússia, ontem mesmo, após entregar na Comissão Central Eleitoral (CCE) russa uma petição onde o sufrágio presidencial é descrito como uma “farsa”.
Na véspera, o candidato presidencial comunista apresentara em Moscovo uma queixa à delegação da Assembleia do Conselho da Europa, a única missão de monitores eleitorais ocidentais que vai acompanhar o sufrágio, onde sublinhava a forma como os media russos, sobretudo as televisões, sob controlo do Kremlin, consagraram todas as atenções a Medvedev e dificultaram o acesso aos demais candidatos.
Iniciativa local
“Qual é a melhor forma de mostrar ao próximo Presidente que o amamos? Nestas eleições, é garantir-lhe uma boa afluência às urnas, para que Medvedev se torne no Presidente legítimo aos olhos de todos”, explicava ao Moscow Times fonte da CCE, sob anonimato.
A mesma estratégia foi abraçada em Dezembro, quando os quase 109 milhões de russos foram chamados a eleger o novo Parlamento. “Tanto o Kremlin como o Rússia Unida [partido de Putin, que conquistou a maioria constitucional na Duma] instruíram os governadores para garantirem elevadas taxas de participação”, recordou o mesmo responsável, avançando que, desta feita, a iniciativa foi tomada pelos próprios governadores - nomeados directamente pelo Presidente. “Agora não ficaram à espera de ordens vindas de cima.”
Num cenário eleitoral desprovido de genuína oposição, e com o triunfo de Medvedev dado como certo antes mesmo de os boletins chegarem às mãos dos eleitores, a possibilidade de se registar uma elevada abstenção não pode deixar de causar ansiedades no Kremlin. Uma baixa participação, sabem-no, embaciaria a retumbante vitória do “delfim” de Putin.
Para vencer a apatia, as autoridades das 86 regiões da imensa Federação Russa usaram todo o tipo de tácticas: foram montadas assembleias de voto nas fábricas e exigido aos funcionários que entreguem ali os boletins; o mesmo em todas as instituições públicas, desde universidades a hospitais. O director de um hospital de Moscovo avisou a sua equipa de que “é importante registar uma boa afluência para receber fundos públicos”, de acordo com um médico ouvido pelo St. Petersburg Times.
Muitas regiões organizaram sorteios de carros, frigoríficos e televisores, foram montados festivais de Primavera, votações para a escolha da mascote dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sotchi, em 2014, e concertos grátis, concursos de karaoke, ofertas de bolos e de entradas gratuitas em discotecas - tudo junto às assembleias de voto, vigiadas por mais de 450 mil polícias e militares por toda a Rússia. De algumas cidades chegam denúncias de ofertas de “apadrinhamento” e compra de votos a reformados. De outras vêm relatos de autocarros preparados para levar eleitores de uma assembleia de voto para outra para entregarem boletins de ausentes (que se encontram fora do círculo eleitoral a que pertencem) tantas vezes quanto se mostrar necessário para cumprir a meta de 65 por cento de afluência.
Nem todos os eleitores são, porém, de arregimentar. O Moscow Times citava um responsável eleitoral da capital russa, dando um exemplo ilustrativo: “Em Moscovo, as autoridades não estão a encorajar a votar os residentes de alguns bairros, cujos pátios e jardins estão ser deitados abaixo para abrir espaço a mais construção. Sabem que essas pessoas vão certamente votar contra Medvedev. E quem é que precisa disso?”.
Eleições locais
Voronezh, cidade em amplo crescimento no centro rural do “solo negro” do Sudoeste russo, é um caso excepcional na jornada eleitoral de hoje na Rússia. Ali a campanha foi ao rubro e contam-se nada menos do que 13 candidatos em disputa - não pela presidência do país mas pela liderança da câmara municipal.
Voronezh não está sozinha, mas é a mais ilustrativa das 11 regiões - são 86 - onde os russos vão escolher também quem os vai liderar a nível local. A verticalização de poder feita por Putin retirou muito peso a estas estruturas, mas nem por isso deixaram de ser apetecidas e, como Voronezh revela, muito disputadas.
Será uma semente de democracia? Não é essa a ideia que predomina na cidade, onde a multiplicidade de candidatos é vista como pouco mais do que uma luta pelos despojos. “São homens ricos a quererem ficar mais ricos”, avaliava um eleitor ouvido pelo Independent.
De resto, como no sufrágio presidencial, os liberais mal entram na corrida. A União das Forças de Direita só apresentou candidato em uma das 11 regiões e o Iabloko nem isso conseguiu. ”
02.03.2008 - 08h15 Dulce Furtado, In PUBLICO | Foto Reuters
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