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Guerra no Iraque: Cinco anos de guerra e o poder continua nas mãos de quem tem armas
20.03.2008 – 08h28 Sofia Lorena | In PUBLICO
Cinco anos depois do início da guerra, é difícil prever como será o Iraque daqui a cinco anos. Ou daqui a um. Para os analistas é possível tentar enumerar o que é preciso fazer para que o país atinja algum grau de estabilidade ou segurança. Mas nem essas previsões são à prova de bala. Nada o é no Iraque.
O objectivo do surge, o reforço militar que o Presidente George W. Bush anunciou no início do ano passado e cujos sucessos ontem celebrou, era levar os iraquianos a voltar a sair à rua e fazer com que os políticos pudessem discutir outras coisas para além da violência. Entenderem-se sobre temas essenciais em vez de se acusarem entre si pelo banho de sangue. O reforço militar visava permitir ao Governo e ao Parlamento aprovarem novas leis e o objectivo dessas leis era a reconciliação.
Não há reconciliação
O Governo decidiu marcar precisamente para esta semana uma conferência sobre reconciliação nacional. “Esta conferência mostrou como qualquer reconciliação genuína está condenada ao fracasso, apesar da passagem de algumas leis este Inverno”, disse ontem ao PÚBLICO Kenneth Katzan, especialista em Médio Oriente do Congressional Research Service.
E, de facto, a conferência começou terça-feira e acabou ontem sem que os principais partidos árabes sunitas tivessem participado. O movimento xiita de Moqtada al-Sadr, que tem 30 deputados na Assembleia Nacional e controla uma milícia de 60 mil combatentes, apareceu para depois se retirar, acusando o Governo do xiita Nouri al-Maliki de propaganda.
“As pessoas não se vão reconciliar, já houve demasiada violência… a questão é se conseguem definir um novo conjunto de acordos”, escreveu em Fevereiro Anthony Cordesman, do Center for Strategic and International Studies, think tank de Washington.
Até hoje, o principal sucesso legislativo foi a lei que prevê anular o saneamento dos militantes do Partido Baas da administração pública e das forças de segurança, aprovada em Janeiro. Outra lei muito aguardada é que a abrirá caminho à realização de eleições locais, único meio para permitir a participação política dos que até aqui foram excluídos. O conselho presidencial iraquiano garantiu ontem que vai levantar as suas objecções ao projecto de lei, que define a relação entre as 18 províncias e o Governo central, antecipando que este entrará brevemente em vigor.
“Mesmo a legislação que tem sido aprovada com grande publicidade ficou aquém dos objectivos. Por exemplo, a lei da desbaasificação foi alterada e vai excluir os baasistas de topo, os que trabalharam nos serviços de informação, e impedir que qualquer ex-baasista chegue a ministérios fundamentais, como a Defesa e o Interior”, nota Wayne White, que foi um dos analistas do Grupo de Estudo sobre o Iraque (comissão Baker-Hamilton).
Para White, “80 por cento do sucesso registado no Iraque não tem nada a ver com o surge”, a nova estratégia militar americana. “O desenvolvimento mais significativo foi o facto de as forças dos EUA aceitarem a oferta das tribos árabes sunitas e insurrectos para cooperarem na luta contra a Al-Qaeda”. Uma oferta que implicava que estes grupos – chamados agora Cidadão Locais Preocupados – não tivessem de lidar directamente com o Governo dominado por xiitas. E correr o risco de organizar e armar 90 ou 100 mil ex-rebeldes que se opõem ao Governo.
Em declarações recentes à Comissão das Forças Armadas do Congresso, Stephen Biddle, do Council on Foreign Relations, nota que o declínio da violência se deve “a uma série de declarações de cessar-fogo locais voluntárias – não a uma reconciliação nacional política ou à destruição do inimigo, não à exaustão do potencial de violência como resultado da limpeza étnica nem a uma melhoria nas forças de segurança iraquianas”.
Biddle defende que os rebeldes sunitas mudaram de estratégia porque a “guerra das mesquitas” ou “batalha de Bagdad” – confrontos que se seguiram ao ataque contra o mausoléu xiita de Samarra, em Fevereiro de 2006 – lhes mostrou que, ao contrário do que pensavam, não eram militarmente superiores aos xiitas. Ao mesmo tempo, a Al-Qaeda no Iraque alienou os sunitas – alguns por ser demasiado radical, outros por ser incapaz de lhes dar a vitória.
Sadr precisa da paz
Do outro lado da barricada, Moqtada al-Sadr, vitorioso na “batalha de Bagdad”, mas contestado internamente e fragilizado pelas baixas no Mahdi, percebeu que a paz lhe era por agora mais proveitosa do que a guerra. Sadr, continua Biddle, “precisa da paz porque agora arrisca o seu estatuto político”. Exactamente o contrário do que acontece com o primeiro-ministro: “Maliki corre mais riscos em se comprometer com a paz do que se permitir que a guerra continue.”
A reconciliação, nas regras americanas, significa para Maliki compromissos dolorosos – poder aos grupos sunitas armados, baasistas no governo, partilha de petróleo com as províncias sunitas. E é também por isto que a reconciliação não avança, sustenta Biddle.
Se o declínio na violência se deve mais a decisões espontâneas de líderes iraquianos do que a qualquer iniciativa americana, o futuro também será assim. O problema, como notam muitos analistas, é que não só é difícil perceber quem manda no Iraque como o que vai na cabeça de quem tem poder. “Nós não temos um entendimento claro dos cálculos de todos estes actores”, resumiu numa conferência em Washington Martin Indyk, da Brookings Institution.
“O Governo tem muito pouca autoridade para lá da Zona Verde”, a área do centro de Bagdad onde estão as sedes dos eleitos ou as embaixadas, diz Kenneth Katzan. Lá fora, na Zona Vermelha, “muitas cidades e vilas, e mesmo grandes áreas do país, são controladas pelos grupos armados que existem no Sul e no Centro”. E depois há o Curdistão, no Norte, uma região que é quase um Estado de facto, com governo, exército e bandeira, e onde Bagdad dificilmente consegue impor a sua vontade.
O poder está nas mãos de quem tem armas. E as ameaças não desapareceram. Deslocaram-se (como a Al-Qaeda, que perdeu terreno no Oeste e em Bagdad, mas ganhou espaço no Norte), foram atenuadas, adiadas, controladas. Isso também se deve à segregação que já aconteceu – nas cidades, nos bairros, com os muros e as barreiras erguidos em Bagdad.
A melhor opção para reverter essa tendência é insistir no processo político e tentar manter os cessar-fogos em vigor e, ao mesmo tempo, fortalecer a polícia e o exército. Mas alguns analistas, como Kenneth Katzan, defendem que “a guerra civil vai provavelmente voltar a acelerar-se quando os EUA reduzirem as tropas”. E então pode chegar-se a um ponto em que o único caminho seja a partição.
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