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Tibete: Rice e Sarkozy pedem a Pequim que dialogue com o Dalai Lama, Sarkozy admite boicote aos Jogos Olímpicos
24.03.2008 – 19h33 Agências | in PUBLICO | Foto David Gray/Reuters (arquivo)
Washington e Paris pediram às autoridades chinesas que sejam contidas na reacção aos protestos no Tibete e defenderam um diálogo franco entre Pequim e o Dalai Lama, líder espiritual e chefe do governo tibetano no exílio.
“Acreditamos que a solução para o Tibete terá de passar por uma política mais sustentável por parte do Governo chinês”, declarou a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, reagindo às promessas feitas por Pequim de esmagar a revolta.
Considerando “inaceitáveis” os motins registados na primeira semana de protestos em Lhasa, Rice voltou a pedir “contenção” aos militares chineses e sublinhou que só uma solução política “poderá resolver os problemas do Tibete e responder às reivindicações do tibetanos”.
“Acreditamos que o Dalai Lama pode desempenhar um papel favorável neste processo”, afirmou a chefe da diplomacia americana, lembrando “a crença do líder tibetano na não-violência”, a sua “autoridade mortal inatacável” e o facto de ele já ter declarado “que não pretende a independência política para o Tibete”.
Rice garantiu que os EUA “vão continuar a encorajar o diálogo porque, em última análise, esta é a única política sustentável para o Tibete”.
Pequim classifica o Dalai Lama como o líder dos separatistas tibetanos, apesar de ele ter afirmado publicamente que abdicou de reivindicar soberania política para o território, administrado há meio século pela China. Nas últimas semanas, as autoridades chinesas acusaram-no de ter orquestrado os motins, com a intenção de levar várias nações a boicotar os Jogos Olímpicos de 2008.
Sarkozy pede diálogo
Posição semelhante foi adoptada pelo Presidente francês, Nicolas Sarkozy, que depois de duas semanas de silêncio escreveu ao seu homólogo chinês pedindo-lhe contenção na resposta militar aos protestos e uma aposta no diálogo para a pacificação do território.
Sarkozy “enviou uma mensagem ao Presidente Hu Jintao transmitindo-lhe a sua profunda emoção após os recentes acontecimentos trágicos”, adianta um comunicado da presidência.
Na missiva, o Presidente francês diz esperar que “o diálogo promovido nos últimos anos pelas autoridades chinesas e os representantes do Dalai Lama seja rapidamente retomado”, a fim de permitir que “todos os tibetanos sintam que podem viver plenamente a sua identidade cultural e espiritual no seio da República Popular da China”.
A reacção francesa à repressão movida pela China aos manifestantes tibetanos tem sido muito discreta por comparação à posição assumida pelo primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, que na semana passada acusou Pequim de estar na origem dos motins e se disponibilizou para um encontro com o Dalai Lama.
Segundo Pequim, duas dezenas de pessoas perderam a vida nos motins registados no dia 14 em Lhasa, capital do território, mas a oposição no exílio diz ter dados de que pelo menos 130 pessoas foram mortas pelos militares nas duas semanas de protestos, que se estenderam também a regiões vizinhas do Tibete.
Sarkozy admite boicote à cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos
25.03.2008 – 16h59 PÚBLICO, Agências | in PUBLICO | Foto Philippe Wojazer/Reuters
O Presidente francês subiu hoje o tom das críticas à forma como a China tem reprimido os manifestantes tibetanos e não excluiu a possibilidade de boicotar a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, contrariando posições já assumidas por outros dirigentes europeus.
“Todas as opções estão em aberto, mas eu apelo ao sentido de responsabilidade das autoridades chinesas”, afirmou Sarkozy quando questionado sobre um possível boicote francês às olimpíadas. Pouco depois os seus colaboradores vieram a público sublinhar que o Presidente se referia apenas à sua participação nas cerimónias de abertura dos Jogos e não a um boicote dos atletas franceses à competição.
Sarkozy, criticado pelas organizações de defesa dos direitos humanos pelo silêncio que manteve ao longo de duas semanas, condiciona a decisão final “aos desenvolvimentos da situação no terreno”.
Um dia depois de ter escrito uma carta ao seu homólogo chinês pedindo “contenção” na resposta militar aos protestos, o chefe de Estado francês explicou que cabe aos dirigentes chineses responder às preocupações da comunidade internacional e assim garantir a presença de todos nos Jogos Olímpicos. “Esta estratégia é firme na defesa dos direitos humanos e poderá dar origem a resultados”.
Mais explícito, o chefe da diplomacia francesa, Bernard Kouchner, disse que o combate chinês aos protestos dos activistas tibetanos “não é bom” pois o Dalai Lama, ao contrário do que Pequim afirma, “não ameaça a integridade territorial” chinesa.
Maioria dos dirigentes confirma presença
Apesar dos protestos internacionais à forma como Pequim reagiu às manifestações no Tibete e nas províncias vizinhas, foram poucos até agora os dirigentes que anunciaram que não aceitarão o convite para os Jogos Olímpicos. Mesmo o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, um dos mais críticos da actuação chinesa, já fez saber que vai comparecer na cerimónia de abertura. Também o Presidente norte-americano, George W. Bush, garante que vai deslocar-se a Pequim, o mesmo sucedendo com a maioria dos dirigentes europeus.
Entre as ausências confirmadas está a do príncipe Carlos, um conhecido apoiante da causa tibetana, enquanto o presidente do Parlamento Europeu, o conservador alemão Hans Gert Pöttering, considerou “justificadas” eventuais “medidas de boicote”.
Durão Barroso contra boicote
Em sentido contrário, o presidente da Comissão Europeia disse discordar de eventuais boicotes aos Jogos Olímpicos e apelou aos Estados-membros da UE para adoptarem uma “posição comum” sobre a situação no Tibete.
“Não estamos de forma alguma seguros que qualquer eventual boicote levasse a um maior respeito pela lei da China ou no Tibete”, explicou Durão Barroso, esta manhã, em Lisboa. Para o líder europeu “os Jogos Olímpicos não são um acontecimento político, mas sim um grande evento desportivo e humano” em relação ao qual “não se podem defraudar as hipóteses dos jovens atletas”.
Garantindo que a UE está “muito preocupada” com as denúncias de violência, o líder europeu apelou às duas partes para darem mostras de contenção e defendeu que a UE deve dar mostras de unidade nesta questão. “É importante que a Europa tenha uma posição conjunta, fazendo ver as nossas preocupações e a necessidade de serem respeitados os direitos humanos na China e no Tibete”, acrescentou.
Até ao momento, nenhuma delegação nacional anunciou um boicote dos seus atletas às competições desportivas.
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