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Eleições Itália: Povo votou e escolheu com clareza: Berlusconi III

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Foi em directo telefónico, no programa Porta a Porta do primeiro canal da televisão pública, que Silvio Berlusconi se apresentou vencedor15.04.2008 - 08h58 Sofia Lorena, Roma | in PUBLICO | Foto: Chris Helgren/Reuters

Há oito anos, a Itália descobriu que não conseguia votar num só dia e as filas prolongaram-se pela madrugada. Lição aprendida. Há dois anos, descobriu que conseguia votar num dia e meio, mas podia precisar de um terceiro para acabar de contar os votos. Ontem, a Itália descobriu que também é capaz de uma noite eleitoral sem grandes sobressaltos e com um vencedor claro, apesar das sempre difíceis contas para o Senado (onde há um prémio de maioria que é atribuído região a região).

Os directos de algumas rádios e televisões só terminam hoje às 9h00, mas foi ontem que a Itália escolheu Silvio Berlusconi, o político-empresário, com um império mediático e já por duas vezes primeiro-ministro.

“Estou comovido”

E foi em directo telefónico, no programa Porta a Porta do primeiro canal da televisão pública, que Silvio Berlusconi se apresentou vencedor. “Estou comovido com o resultado eleitoral que se perfila e com a prova de confiança que me foi dada por tantos cidadãos. Não posso negar que penso que as eleições de 2006 não foram regulares. Prova-o também este resultado”, afirmou.

Afinal, não seria noite de eleições em Itália se alguém não falasse de irregularidades, mesmo que para falar do passado.

Berlusconi tem razão: o voto, desta vez, foi claro. O vencedor é ele e o seu Partido da Liberdade (PdL).

“Faremos uma oposição responsável”, prometeu Walter Veltroni, numa declaração na sede do Partido Democrático, nova formação do centro-esquerda. Lembrou que com a escolha de levar o PD a votos sozinho abriu um terramoto no panorama político do país. E sempre sem nomear Silvio Berlusconi, como em toda a campanha, falou do “líder do Povo da Liberdade”. O sucesso da Liga Norte, aliada do PdL, afirma, põe pressão no seu Governo. “É uma maioria que não sei quanto pode durar”, antecipou.

Afinal, também na noite de ontem lá acabou por haver algum prognóstico de ingovernabilidade. Mas Veltroni telefonou a Berlusconi antes de falar - em 2006, Berlusconi nunca chegou a telefonar a Prodi.

Os italianos votaram apenas há dois anos, em Abril. Esperava-se então o adeus a Berlusconi. E quem esperava não queria ficar em casa. Foram muitos os que se juntaram, desde cedo, na Praça Santi Apostoli, diante da sede da União de Romano Prodi. Mesmo se ali passaram horas difíceis - quando se pensou que afinal se perdia o Senado -, ali ficaram, em frente ao palco, à espera de Prodi. Que, mesmo sem saber se tinha ganho as duas câmaras do Parlamento, subiu ao palco para agradecer a todos, já depois da uma da manhã.

Ontem, quando o que se esperava era o regresso de Berlusconi, não festa. Il Cavalieri nem saiu de Milão. Não falou aos apoiantes, nem aos jornalistas - que o seu PdL tinha reunido em Roma, não no centro, mas no Auditória da Técnica, em Eur, uma zona a sul.

Jornalistas, alguns 400. Responsáveis do partido, muitos. Mas nem um apoiante. E fora a neutralidade dos jornalistas e a camisola óbvia dos políticos, quem por lá estava eram hospedeiras, contratadas para acreditar a imprensa e registar entradas e saídas. Talvez pelo menos alguma delas festeje. Não. Tenta-se uma, outra e ainda outra. São precárias e estão tristes, zangadas, desiludidas.

“O outro foi presidente de Roma e fez tanto por Roma. Por que é que as pessoas não confiaram nele, não lhe disseram que fizesse alguma coisa agora pela Itália? Deste já sabemos tudo, a mesma precariedade, os mesmos contratos a prazo, quando há contratos, quando há trabalho. Quero casar-me. Ter filhos. Mas em Itália, como é que posso? Dizem que vão dar 200 euros por filho. Mas um pacote de fraldas custa oito e é preciso mais do que um por semana.” Alessandra, 24 anos, demorou a começar a falar - “aqui são todos do partido dele…” -, mas quando o fez demorou a parar.

A colega, Claudia, 22 anos, queixa-se da falta de “consciência política” dos italianos. Meia italiana meia alemã, diz que faz este trabalho para ter independência económica dos pais e acrescenta que isso é muito pouco italiano e lhe vem da parte alemã.

Maior partido

A trabalhar noutra das secretárias à porta do Auditório, Flavia, 24 anos, que estuda Antropologia Cultural, diz que os italianos “votam em Berlusconi porque o conhecem”. Ele dá-lhes alguma garantia, uma espécie de certeza, é um personagem construído, com uma linguagem muito acessível”. Acrescenta que os comentadores e os jornalistas enterraram Prodi, apesar de este ter começado um caminho lógico, diminuindo a despesa pública por exemplo. “A esquerda foi apresentada como estando morta e os italianos compraram. Neste país vê-se demasiada televisão”, diz.

As precárias contratadas para ajudar no quartel-general do PdL não votaram Berlusconi. Mas quase 40 por cento dos italianos não se importaram de o fazer. Para alem de “vitória clara”, a ideia mais repetida ontem foi a do sucesso do bipolarismo.

E apesar de ter arrancado atrasado na corrida da formação de novos partidos, o PdL, de Berlusconi, ganhou-a. É hoje o maior partido de Itália, à frente do PD.


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