Gaza, Destruição ou renascimento do Hamas?

30.12.2008 – 18h43 Daoud Kuttab |in publico
Num esforço para impedir que rockets artesanais atormentem os residentes de algumas das suas cidades no Sul, Israel parece ter insuflado nova vida ao decadente movimento islâmico na Palestina.
Há dois anos que o Hamas vinha a perder apoios, internos e externos. Não era essa a situação nos dias que se seguiram à chegada ao poder deste partido, pela via democrática, em 2006; apesar de ter sido injustamente ostracizado pela comunidade internacional por se recusar a reconhecer Israel. O Hamas tinha o apoio de palestinianos e de árabes. Tendo vencido por maioria as eleições com um programa que prometia reformas e mudanças, o Hamas esforçou-se arduamente para governar melhor do eu a Fatah, a sua rival e predecessora.
A situação começou a deteriorar-se quando o Hamas tomou violentamente o controlo de Gaza, mas, mesmo nessa altura, ainda beneficiava de considerável apoio doméstico – e de muito boa vontade externa. Depois, o movimento rejeitou todas as ofertas legítimas de reconciliação por parte da OLP e dos mediadores egípcios. E o apoio começou a diminuir.
Uma sondagem levada a cabo pelo Jerusalem Media and Communications Center, e patrocinada pela Fundação alemã Fredrich Ebert, mostra que, em Novembro, só 16,6 por cento dos palestinianos apoiavam o Hamas – 40 por cento eram mais favoráveis à Fatah. Por isso, quando os seis meses de cessar-fogo com Israel chegaram ao fim, o Hamas calculou – e bem – que nada tinha a ganhar em continuar a trégua; se continuasse, as suas credenciais como movimento de resistência não seriam muito diferentes das da Fatah, do presidente Mahmoud Abbas. Incapaz de assegurar uma fronteira aberta e o fim do bloqueio israelita, ao mesmo tempo que recusava partilhar ou ceder o poder a Abbas, o Hamas não tinha maneira de recuperar a popularidade.
Por diferentes razões, o Hamas e Israel renegaram ambos o cessar-fogo, preferindo saltar sobre cadáveres para atingir os seus objectivos políticos. (…) Os ataques desproporcionados de Israel em Gaza foram uma bonança para o Hamas. O movimento recuperou credibilidade no mundo árabe, obteve simpatia internacional e conseguiu interromper as negociações indirectas israelo-sírias e as negociações directas israelo-palestinianas. Também embaraçou o Egipto e a Jordânia.
Embora seja uma incógnita como é que esta confrontação violenta vai acabar, ficou claro que o Hamas foi resgatado de uma quase derrota política enquanto os líderes árabes moderados foram forçados a desistir de qualquer esforço de reconciliação com Israel.
(Jornalista palestiniano e antigo professor na Universidade de Princeton. Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post)
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