Gaza, Testemunhos sobre “a guerra a sério” Diário de Viagens

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Gaza, Testemunhos sobre “a guerra a sério”

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29.12.2008 – 20h09 Maria João Guimarães |in publico

Em Gaza vive-se com as janelas entreabertas a deixar entrar o frio para que o vidro não quebre com os bombardeamentos. As escolas estão fechadas e poucas pessoas se atrevem a andar na rua. “Há uma enorme sensação de vulnerabilidade”, diz um habitante de Gaza. “Aqui não há abrigos. Não há um lugar seguro.”

Telefonar para Gaza por estes dias não é fácil. Em sedes de organizações não-governamentais ninguém atende – ou ficamos a ouvir uma música de natal: não está ninguém. Os telemóveis têm pouca rede. As conversas acabam interrompidas – um bombardeamento, uma ambulância a passar. “A situação aqui é tão má que mesmo que eu a descreva mil vezes, não é possível compreender”, começa logo por dizer Yasser Toshtash, um habitante da Cidade de Gaza, por telefone. “É uma guerra.”

“A situação aqui? É uma guerra. Mesmo”, diz pelo seu lado Hassam El-Nounou, também por telefone. “Estamos no terceiro dia de guerra, e a esperar o pior”, continua.

O que isto significa: bombardeamentos várias vezes ao dia, aviões a quebrarem a barreira do som, escolas fechadas, lojas com pouca comida, falta de tudo.

Um exemplo muito simples: “Temos de ter as janelas sempre ligeiramente abertas, apesar de ser inverno e estar frio, porque se não os vidros podem quebrar com os bombardeamentos. E não há vidros em nenhuma parte de Gaza. Se partem, não há como substituí-los”, conta El-Nounou.

Mas o pior é o “estado de pânico, de medo, de ansiedade” de todos em Gaza. “Há uma enorme sensação de vulnerabilidade. Não há um abrigo. Não há lugares seguros.”

Este ataque, diz El-Nounou, que trabalha no Centro de Saúde Comunitária de Gaza, é diferente de anteriores operações do Exército israelita não só pela magnitude – “morreram mais de 320 pessoas em dois dias” – como pelo tipo de alvos – “Desta vez atacaram mesquitas – nunca antes tinham feito isso”.

“Eles podem atacar tudo”, diz por seu lado Yasser Toshtash, que é consultor de uma ONG palestiniana. “Nenhum lugar é seguro.”

O telefonema com Hassam El-Nounou é pontuado por um som distante – era um bombardeamento – e passado um pouco um pouco, por outro mais perto, a sirene de uma ambulância. Mais tarde, o telefonema com Yasser Toshtash é interrompido. “Consegue ouvir? Um bombardeamento”. Passados uns minutos, ouve-se outra ambulância.

“O pior são as crianças”

Nos últimos dias, todos evitam sair de casa. “Temos medo de sair, as crianças têm muito medo. Temos de estar juntos a maior parte do tempo”, diz Yasser Toshtash. A excepção é tentar comprar comida. “Eu tenho sorte: tenho uma loja mesmo ao lado de casa e algum dinheiro para comprar. Mas sou uma excepção”.

“Há um ataque contínuo, não há linhas vermelhas, não há limites”, diz Hassam El-Nounou. “Não há distinção entre alvos civis e militares. Eu vivo perto da Universidade Islâmica que foi bombardeada ontem às duas da manhã.”

Tanto Hasaam El-Nounou como Yasser Toshtash são pais: um tem três filhos, o outro tem seis. “As crianças são o pior. Estão num estado contínuo de ansiedade, estão em pânico a cada som de bombardeamento, a cada som de aviões a quebrar a barreira do som. Não conseguem estar sozinhas”, diz El-Nounou. “O meu principal problema são os meus filhos”, diz Toshtash. “Eles têm muito medo.”

A família e amigos que estão longe também são uma preocupação. “A cada bombardeamento, recebo pelo menos quatro telefonemas de familiares para saber se estou bem. E faço depois, também eu, telefonemas para saber de outras pessoas”, conta Hassam El-Nounou.

A comida também começou a escassear. “Já não há leite. Ainda temos um pouco de farinha, um pouco de arroz. Mas vai acabar, deve durar mais uns dois dias. E se ainda houver uma ofensiva terrestre…”, diz El-Nounou. “Não é possível ter comida no frigorífico”, conta Toshtash. “Temos electricidade durante algumas horas por dia, mas nunca sabemos a que horas. Temos latas de feijões, ainda há algum pão. Mas não sabemos até quando.”

Os funerais são outro problema. “Primeiro, não há muita gente a ir aos funerais – as pessoas têm mesmo medo de sair de casa”, conta El-Nounou. E depois, é complicado enterrar os mortos. “Não se consegue chegar ao cemitério principal. É muito perto da fronteira onde estão as tropas israelitas”, conta Yasser Toshtash. “Têm sido usadas as mesmas campas para enterrar várias pessoas”, acrescenta Hassam El-Nounou. E Toshtash conclui: “Acho que isto é contra a lei humanitária internacional.”

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