Gaza, Washington diz que cabe a Israel decidir operação terrestre


02.01.2009 – 17h15 |in PÚBLICO
A Administração norte-americana considera que cabe a Israel decidir se deve, ou não, avançar para uma ofensiva terrestre na Faixa de Gaza, onde, ao sétimo dia de bombardeamentos, foram mortos seis palestinianos, três dos quais crianças. Nos territórios palestinianos e em dezenas de outros países, milhares saíram à rua para participar na “jornada de cólera” decretada pelo Hamas.
Questionado sobre a legitimidade de uma ofensiva terrestre contra um dos mais densamente povoados territórios do planeta, Gordon Johndroe, porta-voz da Casa Branca, escusou-se a revelar qual a posição dos EUA sobre esta matéria, dizendo apenas que “essas decisões cabem aos israelitas”.
Johndroe insiste que “Israel tem o direito a defender-se dos ataques com rockets” disparados pelo Hamas e “o que quer que eles façam, por terra ou ar, faz parte da mesma operação, que decidiram lançar porque não queriam continuar sujeitos à chuva” de projécteis.
O responsável acrescentou que a Administração tem mantido contactos “regulares” com o Governo israelita e a sua principal preocupação tem sido convencer o país aliado a garantir o menor número de baixas civis. “Qualquer acção que eles adoptem no âmbito desta operação tem de ter em conta a necessidade de evitar vítimas civis”, sublinhou, acrescentando que é também urgente “continuar a enviar ajuda humanitária” para a Faixa de Gaza”.
Pouco antes, a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, garantira que estava a trabalhar com outros países para conseguir, “o mais rapidamente possível”, um cessar-fogo “durável” na Faixa de Gaza, mas sublinhou que a trégua deve “ser sustentável” e não pode representar regresso ao actual “status quo”, em que o Hamas lança diariamente “rockets” contra Israel.
Míssil israelita mata três crianças
A posição norte-americana surge em contra-ciclo com as declarações assumidas pela generalidade da comunidade internacional. Esta tarde, o enviado especial da ONU para o Médio Oriente, Robert Serry, voltou a pedir um cessar-fogo imediato nas hostilidades entre Israel e o Hamas, enquanto o chefe da diplomacia egípcia enviou uma carta à sua homóloga israelita, pedindo ao país vizinho para renunciar a uma ofensiva terrestre.
No terreno, os raides aéreos não dão sinal de abrandamento e só hoje, segundo a agência Reuters, foram atacados mais de 30 alvos. Um dos mísseis lançados pela aviação israelita atingiu três crianças da mesma família, que brincavam numa rua de Khan Yunis, no Sul da Faixa de Gaza, provocando a sua morte imediata. Os serviços de emergência confirmam a morte de outras três pessoas, dois dos quais civis, o que eleva para 424 o número de palestinianos mortos desde o início da ofensiva, no sábado passado.
Do outro lado da fronteira, duas dezenas de “rockets” foram lançados contra o território israelita, atingindo cidades como Ashdod, Ashkelon e Beersheva, cidades no Sul de Israel e que até há pouco tempo se consideravam fora do alcance dos disparos palestinianos.
Dezenas de manifestações contra ofensiva
Esta sexta-feira, dia sagrado para os muçulmanos, fica marcado por manifestações em dezenas de países, na sua maioria árabes, no âmbito de uma “jornada de cólera” convocada pelo Hamas, em resposta à morte do xeque Nizan Rayyan, um dos líderes da ala mais radical do movimento islamista.
Rayyan, o mais alto dirigente do movimento a ser atingido pela ofensiva israelita, foi esta manhã a sepultar em Gaza, juntamente com as suas quatro mulheres e oito filhos menores. O Hamas já prometeu vingar a sua morte, usando todos os meios aos seus dispor, incluindo atentados suicidas que, avisa, poderão atingir “os interesses sionistas em qualquer lado”.
Apesar de desincentivados pela Autoridade Palestiniana, controlada pela Fatah, milhares de palestinianos saíram às ruas de Ramallah, na Cisjordânia, prometendo “sacrificar a alma e sangue por Gaza”, enquanto em Jerusalém Oriental (parte anexada por Israel) se registaram pequenos confrontos, depois de cerca de três mil fiéis terem rezado no Pátio das Mesquitas para pedir o fim da ofensiva.
De Cabul a Carachi, passando por Teerão, Damasco, Beirute ou Istambul, milhares de muçulmanos responderam ao apelo do Hamas e juntaram-se a manifestações para repudiar a ofensiva israelita e, em alguns pontos, registaram-se mesmo confrontos com as forças policiais que protegiam embaixadas ou outros edifícios públicos. Um dos maiores protestos ocorreu em Amã, na Jordânia, onde cerca de 40 mil pessoas se juntaram no principal estádio da cidade em solidariedade para com o povo palestiniano.
Além dos países de maioria muçulmana, várias cidades da Europa foram palco de protestos contra a ofensiva israelita, como foi o caso de Estocolmo, na Suécia, onde perto de um milhar de pessoas saíram à rua, ou de Viena, na Áustria, onde uma manifestação agendada por movimentos pró-palestinianos juntou cerca de cinco mil pessoas.
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