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Israel, no sul do país “Há crianças que não viveram um dia da sua vida sem um alarme, sem um rocket”

Os rockets do Hamas começam a chegar mais longe e a cidades maiores30.12.2008 – 14h24 Maria João Guimarães |in publico

No Sul de Israel, os habitantes queixam-se de não ter vida por causa dos rockets do Hamas. Sderot, a cidade mais afectada, perdeu metade da população nos últimos 8 anos, a economia está estagnada, as crianças têm medo. Agora, os rockets do Hamas começam a chegar mais longe e a cidades maiores, como Ashdod e Ashkelon, onde já fizeram vítimas mortais.

“Outro dia fui passar pela casa de um vizinho sabe qual foi a primeira coisa que a minha filha, que tem cinco anos, me perguntou? Foi onde estava o abrigo”, comenta, por telefone, Yossi Tal, que mora em Ashkelon. “Um miúda de cinco anos e tem a preocupação de saber onde está o abrigo.”

Deve existir um abrigo a cada três quarteirões, explica Yossi Tal, e as casas construídas depois de 1991 têm de ter uma divisão segura. Há um sistema anti-míssil: antes de cair um projéctil, soa um alarme. Depois, há 15 segundos para chegar a um abrigo. “Se é jovem e consegue correr, não há problema”, diz Tal. “Mas uma mulher grávida, uma pessoa doente, ou mais velha já não consegue.”

Eitan Regev, um estudante a morar num kibbutz (comuna) perto de Sderot, a cidade mais castigada pelos rockets, diz que este sistema às vezes ainda é pior. “Às vezes estamos longe de um abrigo e não podemos ir para lado nenhum. Então ficamos ali a pensar que o rocket vai chegar e sem saber se vai chegar para você ou não – e isso é o pior”, conta, numa entrevista por telefone, num português abrasileirado que aprendeu ao ajudar famílias brasileiras a integrar-se quando chegaram a Israel.

“No outro dia estava no carro quando soou o alarme”, conta Yossi Tal, que tem dois filhos, uma menina de cinco e um filho já maior, que é reservista. “Estava perto do jardim de infância e perto não havia um abrigo. Fiquei a pensar o que fazer? Correr para o jardim infantil? O que faço?”

“E as crianças, quando ouvem o alarme, às vezes entram em pânico”, conta Regev. “Não querem ir para a escola, ficam nos abrigos, há crianças com oito anos a dormir na cama dos pais.. Há aqui meninos que nunca viveram um dia sem que soasse um alarme, sem que caísse um rocket.”

Desde o início do ano, pelo menos 9 civis israelitas morreram vítimas de rockets disparados da Faixa de Gaza.

“Temos instruções do Exército sobre como lidar com os rockets”, diz Yossi Tal. “Sabemos que não devemos estar em concentrações de pessoas, nunca estar mais de 50 pessoas num dado local”, explica, exemplificando: “não fazemos celebrações como casamentos ou Bar Mitzvah [a cerimónia judaica que marca a entrada na vida adulta]…”

O Exército também avisou os habitantes da área para poderem ter de ficar em abrigos durante tempo indeterminado, até que termine a operação. “Estamos preparados para isso. O pior não é termos de ficar agora num abrigo. O pior foi termos estado estes oito anos com rockets a cair todos os dias perto”, diz Eitam Regev, que está a terminar o mestrado em Direito enquanto trabalha num banco. Muitas pessoas da região decidiram sair mais para Norte: “Há muitas famílias em Israel que, embora não conheçam as pessoas, ofereceram as suas casas para acolher famílias de Sderot”. Mas não Regev e a sua família – cinco irmãos, uma irmã casada e com um bebé – que para já decidiram ficar no kibbutz.

Também sentem que não vale a pena sair para alguns locais perto: “Agora o Hamas tem rockets maiores e melhores, que caem em Ashkelon, Ashdod…”

“Nunca pensei que ia ter de viver assim”, desabafa Eitan Regev. “Isto não é vida.”

“Claro que temos medo”, diz Yossi Tal. “Temos crianças, velhos.. Todos podem estar ao alcance de um rocket. Uma mulher que morreu ontem ouviu o alarme do rocket soar. Estava dentro do carro, não sabia o que fazer, foi tentar abrigar-se na paragem do autocarro. E o rocket caiu precisamente aí”, relata. “E ontem morreu um árabe israelita vítima de um rocket. É tão irónico matarem árabes. E nem pediram desculpa – nós é que tratámos dos árabes que ficaram feridos – claro, são cidadãos de Israel”, comenta ainda.

Agora, à volta de Sderot, as escolas estão fechadas, as fábricas estão fechadas, nada está a funcionar, conta Regev. “Vamos ficar em casa. O Exército já aviou para que nos próximos dias possam cair 100 a 200 rockets por dia.”

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