Eleições Irão 2009: Domingo 22 Junho, 1º dia sem manifestações


21.06.2009 – 21h50 Francisca Gorjão Henriques | in PUBLICO
Pela primeira vez em nove dias, hoje não parece ter havido manifestações em Teerão, embora à noite tenham surgido relatos de tiros em bairros do norte da cidade, zona favorável a Mir-Hossein Mousavi. A cidade esteve apinhada de forças de segurança que, segundo uma testemunha disse à AFP, chegaram a dispersar grupos de três pessoas. Mas a calma não diz tudo. Um diálogo ruidoso ocorreu entre o Governo iraniano, Washington e Londres.
A contestação interna levou o Presidente Mahmoud Ahmadinejad a dizer aos EUA e o Reino Unido para não se intrometerem nos assuntos iranianos. “Foi com maus propósitos que entraram no círculo de amigos da nação iraniana”, declarou Ahmadinejad no seu site. “Exijo que parem com as vossas ingerências”.
Antes, o Governo acusara o Reino Unido de “há mais de dois anos fabricar um complô” contra as presidenciais de 12 de Junho, cuja legitimidade está a ser contestada com gigantescas manifestações. A acusação foi lançada pelo chefe da diplomacia iraniana, Manouchehr Mottaki, citado pelo canal de língua inglesa Press TV.
À noite, o Presidente dos EUA — que já tinham sido acusados de fomentar “terrorismo” no Irão — voltou a expressar a sua preocupação com a violência e “acções injustas” contra os manifestantes, depois de um encontro com os seus conselheiros de política internacional.
O corpo diplomático em Teerão foi convocado pelas autoridades iranianas, sem que tenham divulgadas mais informações. Mas o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano referiu a presença de “’elementos’ ligados aos serviços secretos britânicos”. Londres “queria que ninguém votasse… era a linha dos media britânicos”.
“Rejeito a ideia de que as manifestações no Irão são manipuladas ou incentivadas por países estrangeiros”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, David Miliband. “O Reino Unido é categórico: cabe ao povo iraniano escolher o seu governo, e às autoridades iranianas garantir a imparcialidade dos resultados e a protecção dos cidadãos”.
Newsweek e BBC são alvos
As autoridades têm imposto restrições aos media locais e estrangeiros. Ontem, foram mais longe ao acusar o correspondente da BBC em Terão, Jon Leyne, de ter “apoiado” os manifestantes, que há uma semana acusam o regime de ter organizado presidenciais fraudulentas, avança a agência Fars. Leyne tinha 24 horas para deixar o Irão. A BBC confirmou a ordem de expulsão, mas afirma que o seu escritório “permanece aberto”.
Ao fim do dia, a revista norte-americana Newsweek anunciou que o seu corresponde no Irão, Maziar Bahari (canadiano-iraniano) tinha sido preso. “A cobertura feita por Bahari do Irão foi sempre equilibrada”, disse a revista, num comunicado.
A BBC acusou as autoridades iranianas de interferirem com as suas transmissões via satélite. “Isto vai contra todos os acordos internacionais dos quais o Irão é signatário”.
O influente presidente do Parlamento é da opinião que as relações com o Reino Unido, França e Alemanha devem ser reconsideradas, tendo em conta os seus comentários “vergonhosos”. Ali Larijani disse que a comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros devia pôr na agenda a reconsideração dos laços com estes três países”, cita a rádio oficial.
A chanceler alemã, Angela Merkel, emitiu um comunicado particularmente forte. “Apelo com firmeza aos dirigentes iranianos… que façam uma nova contagem dos votos”. O regime deve “autorizar manifestações pacíficas, não usar violência contra os manifestantes, libertar os opositores e autorizar os media a cobrirem livremente” os acontecimentos. “Os direitos humanos e civis devem ser inteiramente respeitados”.
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