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Irão pós Eleições 2009: Entrevista a Meir Javendafar analista de questões políticas

01.07.2009 – 07h00 Margarida Santos Lopes | in PUBLICO

Com dupla nacionalidade iraniana e israelita, Meir Javendafar nasceu em Teerão, de onde saiu oito anos depois da revolução islâmica do ayatollah Khomeini. Formado em Relações Internacionais e Estudos Estratégicos na universidade inglesa de Lancaster, vive agora em Telavive onde é director da Middle East Economic and Political Analysis Company (meepas). Escreveu com Yossi Melman o livro Nuclear Sphinx of Tehran – Mahmoud Ahmadinejad and the State of Iran, colabora com a Jane’s Intelligence Digest e é um dos conselheiros da Aliança das Civilizações. O jornal “Asia Times” descreve-o como “um dos observadores mais bem informados”, e o blogue reformista iraniano Negarkha considera-o “um dos analistas mais objectivos”, Javendafar deu esta entrevista ao PÚBLICO por telefone, a partir do Brasil, onde está de férias.

A reeleição de Mahmoud Ahmadinejad foi confirmada pelo Conselho dos Guardiões. Será que a “revolução verde” chegou ao fim?

Isto não foi uma revolução. Foi um protesto. As pessoas não estavam a lutar por uma mudança de regime. Exigiam uma contagem justa dos votos e que as suas vozes fossem ouvidas pelo Supremo Líder. Queriam que o ayatollah Ali Khamenei reconsiderasse o seu apoio ao Presidente Mahmoud Ahmadinejad. O ayatollah não cedeu. O facto de não ter cedido criou mais frustrações entre as pessoas. A resposta violenta aos protestos contribuiu para uma redução das manifestações. No entanto, acho que os protestos, em maior ou menor número, não acabaram. De modo algum!

A batalha no regime continua?

Sim. Nós não vemos, mas há uma luta entre Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, Mir-Hossein Mousavi e os teólogos [moderados] de um lado, e Ali Khamenei, Ahmadinejad e os messiânicos liderados pelo ayatollah Misbah Yazdi do outro. Por agora, os aliados de Khamenei estão numa posição de vantagem. Muito vai depender do que Khamenei pode oferecer ao outro lado. Ou mais importante: vai depender da margem de manobra que [o campo de Mousavi] terá para forçar Khamenei a uma espécie de compromisso. Num futuro a médio prazo, não vejo isso a acontecer.

Houve muita especulação de que o ayatollah Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, presidente da Assembleia de Peritos, estaria a congregar apoios para afastar Khamenei, mas o Supremo Líder parece ter saído vitorioso. O que aconteceu?

Para confrontar Khamenei, Rafsanjani não podia avançar sozinho. Ele precisa dos mullahs, e nenhum deles tem agora um grande poder. Precisava que as pessoas continuassem a manifestar-se durante várias semanas e precisava do apoio dos manifestantes. O problema é que o próprio Rafsanjani tem um passado obscuro. Depois, os mullahs estão muito distantes do povo. Há uma coisa que é muito importante frisar: Rafsanjani não quer pressionar muito Khamenei. Porque se este cair devido à instabilidade, ou se as pessoas começarem a reclamar uma democracia total no Irão, isso será muito mau para Rafsanjani. É certo que há teólogos que não estão satisfeitos com a situação mas não têm poder suficiente para a mudar. Os Guardas da Revolução estão com Khamenei e Ahmadinejad. Também há mullahs que receiam pressionar Ahmadinejad porque isso se pode virar contra eles. Se pressionarem muito, todo o regime pode cair. Eles têm de ser muito cuidadosos. Acho que até os mullahs na Assembleia de Peritos duvidam que os Guardas da Revolução aceitariam o afastamento de Khamenei.

Os Guardas da Revolução estão em vantagem?

Sim, porque nos últimos dez anos, Khamenei reduziu, gradualmente, o poder dos teólogos. Já não estamos em 1979, quando a maioria da liderança, tendo Khomeini à cabeça, era composta por dirigentes religiosos.

[Exemplos: o “ayatollah” Mohammad Behesti era o chefe do sistema judiciário, o “hojatoleslam” Mohammad Reyshahri foi ministro dos serviços secretos, o “ayatollah” Sadegh Khalkhali foi juiz dos tribunais revolucionários, Khamenei formou os Guardas da Revolução e foi Presidente da República, tal como Rafsanjani e Khamenei. Em 1997, metade dos candidatos à chefia do Estado eram “mullahs”. Este ano, só houve um: Mehdi Karroubi.]

Por que é Khamenei reforçou o poder dos Guardas da Revolução e reduziu o dos mullahs, como ele?

Porque são mais leais. Os Guardas da Revolução combateram na guerra contra o Iraque, e são os que têm mais a perder. Os mullahs terão sempre as mesquitas, mas os Guardas da Revolução não têm nada mais nada. Esta gente veio do interior do país, foi-lhes dado poder e por isso estão mais dispostos a correr riscos. Depois é uma questão de know-how. Educados em seminários religiosos, os ayatollahs têm fraca ideia de como se governa um país – só conhecem o Corão. Não se lhes pode entregar os ministérios da Saúde, da Defesa ou do Petróleo. Há ainda outro factor, muitos dos mullahs da revolução estão a ficar velhos e a nova geração não tem qualificações nem espírito de sacrifício, porque não lutaram pela revolução nem na guerra com o Iraque, ao contrário dos revolucionários não-mullahs. É por isso que Khamenei prefere investir nestes. Há ainda outro factor: desde que se tornou Supremo Líder, em 1989, Khamenei olha para os outros mullahs, em particular Rafsanjani e Khatami, como rivais e uma ameaça maior.

[Os Guardas da Revolução”foram dotados de uma extraordinária influência sobre todas as funções na República Islâmica – militar, política, económica e até islâmica”, salientou no seu “weblog” Gary Sick que foi conselheiro de Jimmy Carter durante a crise dos reféns na embaixada americana em Teerão. “Tecnicamente eles recebem ordens do 'rahbar’ (Líder), mas será que ele alguma vez ousou contradizê-los? Pelo contrário, parece estar sempre a cortejá-los, oferecendo-lhes mais poder e responsabilidades. (...) Ao contrário do exército profissional, que sempre abjurou exercer um papel político, os Guardas da Revolução foram reconhecidos como protectores da República Islâmica. Eles e as suas empresas obtiveram grandes contratos, da construção de aeroportos às telecomunicações e fabrico de automóveis. O Estado corporativo e militarista reduziu os privilégios de outros. Para Rafsanjani, o segundo homem mais poderoso e em competição directa com os Guardas da Revolução, é um momento existencial”.]

Quais são agora as opções de Mousavi e de Karroubi?

Se as manifestações se tornarem muito violentas, talvez possam recorrer a greves. Ou podem chegar a um compromisso com Khamenei. É possível que Karroubi aceite afastar-se durante algum tempo, mas Mousavi vai esperar para ver se tem apoio popular. Ele vai ter de mostrar liderança.

Como vai liderar se está quase sob detenção domiciliária?

A detenção não será um impedimento. Basta pensar em Khomeini que foi exilado para o Iraque [e depois para França] e fez a revolução fora do país.

Há risco de que possa ser preso ou deportado?

Seria um grave erro da parte de Khamenei prender Mousavi, mas tudo é possível. Se Mousavi for preso ou pedir asilo, por exemplo, à embaixada sueca em Teerão, Khamenei enfrentará a mais credível oposição desde meados dos anos 80. Para Mousavi, a prioridade é deixar o vento soprar, transformar estes protestos num movimento de desobediência civil. O próximo passo, ninguém sabe. Mousavi não é Khomeini. É um intelectual. Também não é um político astuto como Rafsanjani. É surpreendente que tenha chegado até aqui.

Qual será o papel do Parlamento – a instituição que pode demitir o Presidente?

Se Khamenei quiser que Ali Larijani [o presidente do Majlis] se mantenha à margem, não haverá oposição viável. Mas se Khamenei permitir que Larijani seja alternativa, então prevê-se que Ahmadinejad enfrentará problemas no Parlamento. Larijani não gosta de Ahmadinejad e poderá ser o próximo Presidente iraniano daqui a quatro anos. A melhor maneira de o conseguir é ser agora uma boa alternativa a Ahmadinejad.

[Ali Larijani, filho do grande “ayatollah” Hashem Amoli, um teólogo xiita que morreu em 1993, está a emergir como “uma terceira força”, escreveu Kamal Nazer Yasin, no “site” Eurasianet.org. “Com laços ao 'establishment’ religioso e com sólidas credenciais religiosas, esforça-se arduamente para criar um perfil público distinto de Khamenei e de Mousavi. (...) A apoiá-lo tem familiares influentes. O irmão Sadegh é um dos 12 membros do Conselho dos Guardiões e terá sido ele que forçou o reconhecimento de que houve irregularidade em três milhões de votos. O irmão Javad é um destacado estratega político. O genro Ali Motahari é uma proeminente figura da direita conservadora.]

Como vai Ahmadinejad relacionar-se com a comunidade internacional?

Acho que a América vai negociar com o Irão, mesmo que seja muito mais difícil. O regime iraniano perdeu muita credibilidade, dentro e fora do país.

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