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Iraque: 30 de Julho 2009, Os iraquianos voltam hoje a ser os donos das suas cidades
30.06.2009 – 09h48 Sofia Lorena | in PUBLICO
Foto: Mohanned Faisal/ReutersA Ahmed Ali tem 20 anos e há seis anos que não ia a uma festa. Ontem foi – “vim ouvir os cantores que adoro” – e o mesmo fizeram outros em Bagdad. A festa começou à tarde no imenso Parque Zawra, deserto de gente até há dois anos, e continua hoje, feriado em todo o país, Dia Nacional da Soberania. O último em que as tropas norte-americanas poderão circular livremente pelas cidades do Iraque.
O Governo de Nouri al-Mailiki não poupou esforços: há bandeiras a anunciar “Paz” e flores pelas ruas de Bagdad, nas viaturas militares americanas que agora serão conduzidas por militares iraquianos também. Entre os festejos no Zawra, muitas bandeiras do Iraque e uma em que se lia “Bagdad atravessou momentos difíceis mas hoje recupera a sua soberania e a sua independência”.
Num país que viu pelo menos um quinto da sua população passar a fronteira para fugir da violência dos últimos anos, Maliki quis trazer cantores como Salah Hassan, Kassem Sultan ou Abed Falek, os favoritos de Ahmed Ali que ele nunca mais tinha visto, como contou à agência AFP, pois nunca mais tinham voltado a Bagdad. A festa é o que Maliki pode controlar. O próprio primeiro-ministro diz que a violência, como a dos ataques que mataram mais de 200 pessoas a semana passada, é inevitável nesta fase. E admite que entre a saída dos EUA das cidades e as eleições legislativas de Janeiro poderá mesmo aumentar.
Até à meia-noite de hoje as tropas de combate dos EUA terão de desaparecer dos centros urbanos. Assim o definiu o pacto de segurança bilateral negociado o ano passado entre Bagdad e a Administração de George W. Bush, o mesmo que determina que todas as tropas americanas deixem o país até 2012. Para já, ficam os 132 mil soldados dos EUA que lá estão – até às eleições de Janeiro o número não deverá baixar dos 128 mil.
Sabe-se que alguns militares vão permanecer no interior das cidades, mas Washington não quis dizer quantos. Em qualquer cenário, os EUA não podem actuar como até aqui: só participarão em operações nas cidades ao lado de forças iraquianas, quando Bagdad lhes pedir que o façam.
Maliki e outros líderes iraquianos “ligaram o seu futuro político à retirada dos EUA e à sua capacidade de lidar com a segurança contando com uma ajuda mínima dos americanos”, escreveu o Washington Post. E levaram isso até às últimas consequências, escolhendo “um papel para os EUA no pós-30 de Junho que é o mais limitado possível”, disse ao PÚBLICO Wayne White, um dos analistas do Grupo de Estudo sobre o Iraque (comissão Baker-Hamilton), de 2006.
Receios e sinais
As forças iraquianas estão por testar. “Não podemos saber se estarão prontas para as responsabilidades que terão de enfrentar. A maior preocupação é sectária: as unidades do exército iraquiano são largamente xiitas, curdas ou, menos comum, árabes sunitas. Por isso, a grande dúvida é se, na ausência de uma cooperação próxima com as forças dos EUA, estas unidades individuais do Exército ou da polícia vão funcionar como prolongamentos das instituições nacionais ou vão, em vez disso, agir para apoiar as suas agendas etno-sectárias”, resume o analista do Middle East Policy Council.
E apesar do discurso de líder nacionalista do xiita Nouri al-Maliki, o seu Governo tem dado sinais que alimentam os receios das minorias: “Intimidação, detenções questionáveis e até prisões secretas não só contra os árabes sunitas mas também alguns xiitas, como os sadristas, utilizando em alguns casos unidades de segurança secretas que aparentemente lhe devem lealdade pessoal”.
Nem todos os iraquianos foram festejar ao parque de Bagdad. Perto de Diyala a AFP encontrou membros dos Sahwa, os grupos de ex-insurrectos sunitas que se aliaram aos EUA contra os extremistas estrangeiros permitindo a diminuição drástica da violência dos últimos dois anos. Agora têm medo daqueles que enfrentaram e de outros; têm medo de todos. “As milícias iranianas vão chegar”, disse um. “Sem os EUA, seremos o alvo do Governo e da Al-Qaeda”, antecipou Abdallah al-Obeidi, chefe local destes grupos.
É possível. Num relatório intitulado Ensaio Iraque, Stephen Biddle, do think-tank Council on Foreign Relations, admite esse e muitos outros cenários: ex-combatentes sunitas, milícias xiitas como a de Moqtada al-Sadr e mais de 200 grupos, onde se incluem alguns que são apenas criminosos e oportunistas, todos podem ser arrastados num cenário em que “a violência local cria um incentivo para a retaliação, que cria um incentivo para a contra-retaliação, arriscando uma escalada que pode até atrair actores vizinhos e levar ao colapso dos acordos de cessar-fogo” em vigor dentro do país. Por pior que o Iraque já tenha estado, há muitos caminhos que podem levar o país a ficar ainda pior.
Do ponto de vista do que ainda pode controlar, sustenta Biddle, Washington tem de estar disponível para uma retirada mais espaçada do que desejaria. Também deveria estar disponível para aumentar a ajuda financeira e assim fortalecer o Governo de Maliki, que ainda oferece aos iraquianos serviços básicos mínimos, sustentam outros analistas. Mas essa não é a vontade da Casa Branca, que desde o início quis reinvestir noutros cenários e prioridades. Ontem Barack Obama não falou do Iraque; em Bagdad, o embaixador Chris Hill disse que o futuro pode ser “uma estrada incerta, mas tem de ser uma estrada iraquiana.”
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