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Eleições Uruguai 2009: José Mujica potencial candidato
25.10.2009 – 11:07 Por Isabel Gorjão Santos | In PÚBLICO | Foto: Andres Stapff/Reuters
Cresceu a produzir flores, foi guerrilheiro e poderá ser o próximo Presidente do Uruguai. José Mujica, a quem muitos chamam apenas “Pepe”, está à frente nas sondagens para as eleições de hoje, mas poderá ter de disputar uma segunda volta com o candidato da direita e ex-Presidente Luis Lacalle. A oposição procura ligá-lo a uma esquerda radical, mas Mujica define-se como “um inofensivo guerrilheiro vegetariano” que quer continuar o trabalho do Presidente Tabaré Vasquez.
Mujica é candidato pela Frente Ampla que governa o país desde que Vasquez foi eleito o primeiro Presidente de esquerda, em 2004. O crescimento económico – 5,7 por cento ao ano desde 2003 – fez do Uruguai um dos poucos países da América Latina a escapar à recessão, uma das razões para a popularidade de Vasquez, nos 60 por cento. Se o Presidente pudesse recandidatar-se, teria a vitória quase assegurada, mas como a Constituição só permite um mandato, a Frente Ampla escolheu o senador Mujica, antigo ministro da Agricultura do Governo de Vasquez, para disputar as eleições.
As sondagens dão-lhe uma vitória de 48 a 49 por cento, muito à frente do candidato do Partido Nacional, Lacalle, que foi Presidente entre 1990 e 1995 e a quem as previsões dão agora 30 a 32 por cento. Na corrida está ainda Pedro Bordaberry, candidato pelo partido de centro-direita Colorado e filho do antigo ditador Juan Maria Bordaberry, mas muito atrás dos dois principais concorrentes. Para além do Presidente serão eleitos os 31 senadores e 99 deputados do Congresso.
Duas propostas diferentes
Mas nenhuma sondagem dá a Mujica os 50 por cento necessários para evitar uma segunda volta. O ex-guerrilheiro que nos anos 60 pertenceu aos rebeldes tupamaros procurou passar a mensagens de que irá continuar o trabalho do actual Presidente. Escolheu como vice-presidente o ex-ministro da Economia Danili Astori, considerado um dos elementos mais moderados da Frente Ampla, e disse ter por modelo o Presidente brasileiro Lula da Silva.Numa entrevista ao semanário uruguaio “Búsqueda”, Mujica disse ter “imensa simpatia” pelo bloco socialista que emergiu na região com o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e o boliviano Evo Morales, mas adiantou que pretende seguir outra via. “Quero ser amigo de toda essa gente, mas não sigo esse modelo e já disse a Chávez que assim não constrói socialismo nenhum, só muita burocracia.” Citado pelo “Folha de São Paulo”, acrescentou que seguirá o modelo de Lula “por usar o método de se manter no centro do diálogo político permanente”.
Nos últimos dias da campanha Luis Lacalle acusou Mujica de ser “radical” e procurou acentuar as diferenças face ao actual Presidente. “Tabaré representa o socialismo democrático europeu. Já Mujica é de uma esquerda mais radical, como Chávez”, defendeu. Os 2,5 milhões de eleitores vão escolher entre duas propostas diferentes.
“A oposição [de Lacalle] é contra uma maior cobrança de impostos aos mais ricos, como defende Mujiica”, disse à BBC Brasil o professor de Ciências Sociais Miguel Serna, da Universidade da República no Uruguai. Lacalle é favorável a uma economia “mais aberta” aos outros países e menos vinculada às instituições da organização regional Mercosul, sublinhou António Cardarello, professor de Ciências Políticas na mesma universidade. Para além disso, Lacalle escolheu como uma das principais bandeiras o combate à criminalidade e defendeu um maior investimento na polícia e na segurança, enquanto Mujica centrou a campanha nas questões sociais.
Lacalle, de 68 anos, nasceu numa família de proprietários de terra, é advogado e tem procurado sublinhar a experiência à frente dos destinos do país. Mujica, de 74 anos, tem um passado de resistência à ditadura e de fundação da guerrilha Tupamaro que lhe valeram 14 anos de prisão, entre 1973 e 1985. Nasceu numa família de camponeses, cultivou flores, foi criado pela mãe após a morte do pai e acabou por casar com uma ex-guerrilheira, Lúcia Topolansky, senadora. Se for eleito será o segundo ex-guerrilheiro a liderar um país na América Latina, depois de Daniel Ortega na Nicarágua.
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