{"id":886,"date":"2008-04-07T22:52:23","date_gmt":"2008-04-07T22:52:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.joaoleitao.com\/viagens\/?p=886"},"modified":"2016-06-20T01:55:25","modified_gmt":"2016-06-20T01:55:25","slug":"mitos-lendas-antigo-egipto-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.joaoleitao.com\/viagens\/mitos-lendas-antigo-egipto-1\/","title":{"rendered":"Mitos e Lendas do Antigo Egipto: Os dois irm\u00e3os"},"content":{"rendered":"<h2>Os dois irm\u00e3os<\/h2>\n<p>Era uma vez dois irm\u00e3os. O mais velho chamava-se Anupu, e o mais novo, Bata. Anupu era casado e tinha uma quinta onde morava com a sua mulher. Cuidava tamb\u00e9m de Bata e tratava-o como a um filho. Em troca, Bata fazia tudo o que lhe era poss\u00edvel para ajudar Anupu. Fazia-lhe as roupas, levava o gado para as pastagens, lavrava os campos, tratava das colheitas e fazia tudo o mais que precisava de ser feito.<\/p>\n<p>Bata era um belo mo\u00e7o e n\u00e3o havia nos arredores quem lhe comparasse. Havia nele um ar divino, como se algum Deus o tivesse tocado. Sa\u00eda todos os dias para tratar dos seus deveres no campo, e \u00e0 noitinha voltava para a casa de Anupu, levando os produtos da esta\u00e7\u00e3o para a cozinha, o leites das vacas, forragem para os animais, lenha e palha para o aquecimento e para os colch\u00f5es das camas.<\/p>\n<p>Todas as manh\u00e3s Bata acordava cedo e preparava a primeira refei\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o. Habitualmente Anupu dava-lhe provis\u00f5es para o dia inteiro e despachava-o para ir fazer os trabalho do campo.<\/p>\n<p>Entretanto, Bata possu\u00eda uma rara aptid\u00e3o para tratar do gado e confiava em que os animais lhe dissessem onde estavam as melhores pastagens. Quando sa\u00edam da quinta pela manh\u00e3, os animais diziam qual era o pasto que estava excepcionalmente bom neste ou naquele campo. Bata levava-os ent\u00e3o para o lugar que eles haviam aconselhado. Por isso, os animais iam-se desenvolvendo todos bem, tornando-se belas reses e dando \u00f3ptimos bezerros.<\/p>\n<p>Quando a esta\u00e7\u00e3o da lavoura chegou, Anupu disse a Bata: \u00ab Prepara uma boa junta de vacas para arar a terra. As \u00e1guas da cheia do Nilo j\u00e1 desceram e a terra est\u00e1 em boas condi\u00e7\u00f5es para a lavoura. N\u00e3o te esque\u00e7as de levar muitas sementes. Come\u00e7aremos a lavrar a terra amanh\u00e3 de manh\u00e3. \u00bb<\/p>\n<p>Bata tomou nota do que o irm\u00e3o dissera e, antes de se ir deitar naquela noite, preparou tudo o que seria necess\u00e1rio para o dia seguinte. Mediu as sementes e deu aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0s vacas, para que pudessem sair bem cedo pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>Ao nascer do Sol, Anupu e Bata sa\u00edram juntos com os bois e as sementes. Era uma bela manh\u00e3 de tempo suave e o trabalho correu muito bem. Os dois irm\u00e3os apreciavam muito o trabalho que faziam e eram felizes. O trabalho ficou t\u00e3o adiantado que as sementes se acabaram, e Anupu mandou Bata a casa, para que ele trouxesse mais.<\/p>\n<p>Quando Bata chegou a casa, encontrou a cunhada sentada \u00e0 sombra da parte de fora, a pentear ps cabelos e a aplicar cremes. \u00ab Levanta-te e vai buscar mais sementes \u00bb, disse ele. \u00ab Precisamos de mais sementes no trabalho, e o meu irm\u00e3o est\u00e1 \u00e0 espera que eu volte. N\u00e3o demores. \u00bb<\/p>\n<p>\u00ab Claro que n\u00e3o vou fazer isso! \u00bb, disse a mulher. \u00ab Vai tu ao celeiro e serve-te do que quiseres. Achas que vou parar de cuidar dos meus cabelos por tua causa? \u00bb<\/p>\n<p>Bata foi ao celeiro sem discutir, com um grande vaso, o qual encheu com as sementes de que precisava. Quando saiu do celeiro, a mulher viu-o a transportar a sua carga com facilidade e parecendo muito belo e forte. \u00ab Qual \u00e9 a carga qu levas ao ombro? \u00bb, perguntou ela.<\/p>\n<p>Bata respondeu-lhe: \u00ab Tr\u00eas sacos de trigo e dois sacos de cevada. \u00bb<\/p>\n<p>A mulher de Anupu nunca prestara muita aten\u00e7\u00e3o a Bata, mas naquele dia tomou conhecimento dele e sentiu-se dominada por um grande desejo. Reteve-o ent\u00e3o a conversar, louvando-lhe a beleza e admirando-lhe a for\u00e7a. Por fim, segurou-o e disse: \u00ab Entra comigo uma hora para fazer amor. Tudo farei para que as coisa te corram bem e mandarei fazer belas roupas para ti. \u00bb<\/p>\n<p>Mas Bata n\u00e3o quis saber do convite. Reagiu furiosamente, como um leopardo enraivecido, lembrando-lhe que ela era como uma m\u00e3e para ele. \u00ab Nunca mais me fales assim \u00bb, disse-lhe ele. \u00ab Nada direi a ningu\u00e9m sobre o que aconteceu. \u00bb<\/p>\n<p>Bata pegou na sua carga, voltou para onde estava o irm\u00e3o e continuou o seu trabalho. Durante todo o ia o trabalho correu muito bem, e quando a noite caiu, Anupu e Bata tinham feito muito mais do que esperavam. Quando a luz era t\u00e3o fraca que j\u00e1 n\u00e3o era poss\u00edvel trabalhar, Anupu voltou para casa deixado o irm\u00e3o mais novo para levar de volta a junta de vacas e o produto dos campos, como sempre fazia. Reuniu tamb\u00e9m o gado, a fim de lev\u00e1-lo para o est\u00e1bulo durante a noite.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a mulher de Anupu tivera bastante tempo para reflectir sobre o que se passara de manh\u00e3 entre ela e Bata e chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que tinha sido muito leviana. Sentia um verdadeiro terror de que Bata houvesse falado a Anupu dos seus intentos. O ataque pareceu-lhe o melhor meio de defesa, e ent\u00e3o cobriu-se com gordura, fingindo que tinha sido espancada, ao mesmo tempo que bebia \u00f3leo para que ficasse enjoada. Ia dizer ao marido que Bata havia batido nela pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>Como era costume, Anupu chegou a casa primeiro e ficou surpreendido por ver a mulher em t\u00e3o horr\u00edvel estado, deitada na cama a gemer como se tivesse sido espancada e a vomitar. N\u00e3o fora esper\u00e1-lo \u00e0 porta de casa como era seu h\u00e1bito, levado-lhe \u00e1gua para lavar as m\u00e3os e uma luz para que ele pudesse entrar em casa. Anupu entrou tacteando e encontrou-a naquele triste estado. \u00ab Quem \u00e9 que esteve contigo e te deixou nesse estado? \u00bb, perguntou ele.<\/p>\n<p>Ela respondeu: \u00ab Ningu\u00e9m a n\u00e3o ser o teu irm\u00e3o. Quando ele veio buscar mais sementes, hoje de manh\u00e3, encontrou-me sentada sozinha e sugeriu que pass\u00e1ssemos uma hora deitados juntos. \u00c9 claro que n\u00e3o lhe dei ouvidos. Lembrei-lhe que eu era como uma m\u00e3e para ele, e que tu eras como um pai. Ele ent\u00e3o perdeu a cabe\u00e7a e bateu-me para que eu ficasse calada. Se tu o deixares vivo depois disso que ele fez, quem se matar\u00e1 sou eu. Mas n\u00e3o esperes para interrog\u00e1-lo quando ele voltar, porque certamente diante das minhas acusa\u00e7\u00f5es el as transformar\u00e1 numa ofensa feita a si mesmo. \u00bb<\/p>\n<p>Quando ouviu isso, Anupu perdeu toda a calma. Pegou na sua lan\u00e7a e tomou posi\u00e7\u00e3o por detr\u00e1s da porta do est\u00e1bulo e ali ficou esperando a volta de Bata.<\/p>\n<p>Ao fim de algum tempo, Bata aparece com o gado e com o produto dos campos, como normalmente fazia. Quando a primeira vaca entrou no est\u00e1bulo, disse: \u00ab Cuidado, Bata! O teu irm\u00e3o est\u00e1 aqui com uma lan\u00e7a para te matar. \u00bb<\/p>\n<p>A segunda vaca fez o segundo aviso e quando Bata viu os p\u00e9s de Anupu, que apareciam por detr\u00e1s da porta do est\u00e1bulo, largou a sua carga e saiu correndo t\u00e3o depressa quanto p\u00f4de, enquanto nupu o perseguia, brandindo a lan\u00e7a.<\/p>\n<p>Enquanto corria, Bata pedia em voz alta ao grande Deus R\u00e9-Horakhti: \u00ab Ajuda-me, meu bom senhor! Porque tu \u00e9s aquele que julga entre o mal-feitor e o homem justo! \u00bb<\/p>\n<p>O Deus ouviu-lhe a prece e, em resposta, fez surgir entre os dois irm\u00e3os uma extens\u00e3o de \u00e1gua infestada de crocodilos. Anupu ficou na outra margem a bater furiosamente as m\u00e3os, e Bata gritou para ele: \u00ab Espera at\u00e9 ao amanhecer, quando ser\u00e1 feito julgamento entre n\u00f3s. Mas nunca mais viverei convosco. Vou para o Vale do Cedro. \u00bb<\/p>\n<p>Quando amanheceu, Bata viu o seu irm\u00e3o do outro lado da \u00e1gua e gritou-lhe \u00ab Porque me perseguiste com a tua lan\u00e7a antes de ouvir o que eu tinha para te dizer? Afinal de contas, sou o teu irm\u00e3o mais novo, e tu e a tua mulher t\u00eam sido para mim como um pai e uma m\u00e3e. Quando ontem fui a casa para procurar arranjar mais sementes, a tua mulher tentou seduzir-me, mas eu neguei a fazer qualquer coisa com ela e agora ela voltou os factos contra mim. \u00bb<\/p>\n<p>Bata contou ao irm\u00e3o tudo o que tinha sucedido, fez um juramento invocando o nome de R\u00e9-Horakhri, e disse: \u00ab Tu vens para me matar, com a tua lan\u00e7a na m\u00e3o, por instiga\u00e7\u00e3o de uma desenvergonhada! \u00bb<\/p>\n<p>Pegou ent\u00e3o numa faca e cortou o p\u00e9nis, atirando-o para dentro da \u00e1gua, onde um peixe o engoliu. Bata caiu imediatamente desmaiado no ch\u00e3o, e o seu irm\u00e3o, compreendendo como agira mal, sentiu-se cheio de culpa e tristeza. N\u00e3o podia, por\u00e9m, atravessar a \u00e1gua para chegar onde estava Bata, por causa dos crocodilos e ficou na outra margem a chorar.<\/p>\n<p>Depois, Bata chamou de novo Anupu e disse-lhe: \u00ab Pensaste em cometer uma m\u00e1 ac\u00e7\u00e3o! N\u00e3o pensaste numa boa ac\u00e7\u00e3o e nem te lembraste das coisas que eu fiz para ti. Volta para a tua casa e toma conta dos animais, pois eu jamais estarei num s\u00edtio onde tu estejas. Vou para o Vale do Cedro. E quanto ao que tu dever\u00e1s fazer por mim, ir\u00e1s faz\u00ea-lo para tomar conta de mim quando souberes que alguma coisa me aconteceu, pois eu vou arrancar o meu cora\u00e7\u00e3o e coloc\u00e1-lo na flor do cedro. Se o cedro for cortado e o meu cora\u00e7\u00e3o cair no solo vem procur\u00e1-lo, e disso n\u00e3o desistas, mesmo que passes 7 anos a procurar. Quando encontrares coloca-o dentro de um vaso de \u00e1gua fresca, para que eu renas\u00e7a e possa vingar-me de quem me fez mal. Tu saber\u00e1s que alguma coisa me aconteceu quando te puserem na m\u00e3o uma caneca de cerveja e ela transbordar: Quando isso acontecer, vem imediatamente. \u00bb<\/p>\n<p>Bata partiu ent\u00e3o para o Vale do Cedro, e Anupu voltou para casa  cheio de tristeza, gemendo com as m\u00e3os na cabe\u00e7a e coberto de p\u00f3. Depois de ter chegado a casa matou a mulher e lan\u00e7ou o copro dela aos c\u00e3es, lamentando a perda do seu irm\u00e3o mais novo.<\/p>\n<p>Muitos dias depois, Bata chegou ao Vale do Cedro, passando a viver ali. Levava os dias a ca\u00e7ar no deserto e regressava ao entardecer para dormir debaixo do cedro cuja flor ele tinha guardado o seu cora\u00e7\u00e3o. Ali construiu com as suas m\u00e3os um castelo cheio de coisas boas, onde tinha o seu lar.<\/p>\n<p>Um dia, quando sa\u00eda do seu castelo, encontrou a En\u00e9ade, a grande assembleia dos nove deuses que falavam entre eles e tratavam dos assuntos do pa\u00eds. Os deuses da En\u00e9ade disseram a Bata: \u00ab \u00d3 Bata, touro da En\u00e9ade, tu est\u00e1s aqui sozinho depois de teres sa\u00eddo da tua terra e de teres fugido da mulher de Anupu, o teu irm\u00e3o mais velho? Pois bem, ele matou a mulher, e assim tu foste vingado de quem agiu mal contra ti. \u00bb<\/p>\n<p>Os deuses tiveram muita pena de Bata, e R\u00e9-Hokhakti, o Deus principal disse a Khnum, o Deus que modelava os homens no barro, que fizesse uma esposa para consol\u00e1-lo. Khnum assim fez, produzindo uma mulher admir\u00e1vel, composta de elementos divinos. Mas as Sete Hathores, que sabiam o destino de todas as criaturas, advertiram: \u00ab Ela ter\u00e1 uma morte horr\u00edvel. \u00bb<\/p>\n<p>Bata amava-a imensamente e ca\u00e7ava diariamente para ela. Recomendava-lhe que n\u00e3o sa\u00edsse de casa e que tivesse cuidado: \u00ab Tem cuidado, para que o Deus do Mar n\u00e3o te leve.n\u00e3o te poder\u00e1s salvar dele, porque em todo o caso \u00e9s uma mulher. O meu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 no alto da flor do cedro, e se alguma pessoa o descobrir, terei de lutar com ela. \u00bb<\/p>\n<p>E ent\u00e3o Bata contou-lhe tudo o que se passava acerca do seu cora\u00e7\u00e3o. Depois partiu para a ca\u00e7a.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, a mulher de Bata saiu para dar um passeio e foi perseguida pelo Deus do Mar, que rolava em vagas diante dela. Ela fugiu e refugiou-se em casa,mas o Deus do Mar pediu ao cedro para a agarrar. O cedro ent\u00e3o roubou um anel dos cabelos dela e deu-o ao Deus do Mar.<\/p>\n<p>O Deus do Mar levou o anel para o Egipto e depositou-o num lugar onde os servos do fara\u00f3 ( vida, for\u00e7a e sa\u00fade ) costumavam lavar a roupa. O perfume dos cabelos impregnou as roupas do fara\u00f3 ( vida, for\u00e7a e sa\u00fade ), cujos servos se queixaram aos lavadeiros, os quais ficaram muito intrigados com o facto. A disputa entre uns e outros prolongou-se por v\u00e1rios dias e o chefe dos lavadeiros sentia-se muito deprimido.<\/p>\n<p>Depois de uma das discuss\u00f5es di\u00e1rias, foi ele mesmo dar um passeio pela margem do rio, a fim de examinar calmamente o assunto. Parou por acaso exactamente no lugar onde o anel de cabelos estava dentro da \u00e1gua. Mandou um homem mergulhar para apanh\u00e1-lo e, quando o examinou, percebeu que tinha um cheiro muito doce.<\/p>\n<p>Levou-o ent\u00e3o ao fara\u00f3 ( vida, for\u00e7a e sa\u00fade ) que pediu a opini\u00e3o de seus escribas, os quais lhe disseram: \u00ab Estes cabelos pertencem a uma filha de R\u00e9-Hokhakti, que \u00e9 a semente de todos os deuses. Deve ser um presente para ti, vindo de uma terra distante. Envia um mensageiro ao Vale do Cedro, com uma escolta, para a procurar. \u00bb<\/p>\n<p>Ent\u00e3o sua majestade disse: \u00ab Enviai mensageiros a toda a parte para procur\u00e1-la. \u00bb<\/p>\n<p>Os mensageiros partiram imediatamente e, algum tempo depois, todos os mensageiros voltaram, excepto os que tinham ido ao Vale do Cedro. Bata matara-os a todos, poupando apenas um para que levasse a not\u00edcia ao fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade).<\/p>\n<p>Sua majestade enviou ent\u00e3o uma grande for\u00e7a armada para ir buscar a mulher de Bata, fazendo acompanhar os soldados por uma mulher que levava toda a esp\u00e9cie de j\u00f3ias e vestidos. Os soldados apoderaram-se da mulher de Bata sem qualquer dificuldade e levaram-na para o Egipto em grande regozijo.<\/p>\n<p>Sua majestade apaixonou-se imediatamente por ela e deu-lhe o t\u00edtulo de sua primeira favorita. Mas temia a vingan\u00e7a por Bata e pediu \u00c0 mulher que lhe descrevesse o marido. Ela ent\u00e3o aconselhou o rei a mandar cortar o cedro e a rach\u00e1-lo. Os soldados voltaram para cortar a \u00e1rvore, e assim o fizeram, derrubando o cedro com a flor em que estava depositado o cora\u00e7\u00e3o de Bata. Nesse momento, Bata caiu morto.<\/p>\n<p>No dia seguinte, quando Anupu, irm\u00e3o de Bata, voltou para casa e se sentou, foi-lhe levada uma caneca de cerveja que se encheu de espuma e transbordou. Levaram-lhe depois uma caneca de vinho e este ficou azedo.<\/p>\n<p>Anupu preparou-se imediatamente para a viagem, pegou nas suas armas e partiu para o Vale do Cedro. Quando chegou entrou no castelo de seu irm\u00e3o e encontrou-o morto, deitado no leito como cad\u00e1ver. Chorou ao v\u00ea-lo assim, mas lembrou-se do que ele lhe dissera muito antes e saiu \u00e0 procura do seu cora\u00e7\u00e3o, sob o cedro debaixo do qual o seu irm\u00e3o dormia.<\/p>\n<p>Durante tr\u00eas anos procurou em v\u00e3o, mas quando o quarto ano come\u00e7ou teve saudades do Egipto. Na v\u00e9spera do dia que decidira voltar, procurou mais uma vez e encontrou a baga que era o cora\u00e7\u00e3o de Bata. Colocou-a num jarro de \u00e1gua fresca e durante a noite a baga absorveu a \u00e1gua. O corpo de Bata estremeceu ent\u00e3o e olhou para Anupu, que correu para o jarro e deu-o a beber a Bata. Quando o cora\u00e7\u00e3o foi colocado no lugar, Bata voltou a ser o que era, e os dois irm\u00e3os abra\u00e7aram-se.<\/p>\n<p>Disse Bata: \u00abSerei agora um grande touro com estranhas marcas. Tu sentar-te-\u00e1s nas minhas costas e iremos para exercer vingan\u00e7a contra a minha mulher. Leva-me at\u00e9 ao fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade) e ser\u00e1s amplamente recompensado, porque eu serei uma grande maravilha naquela terra.\u00bb<\/p>\n<p>Ao amanhecer do dia seguinte, Bata assumiu a forma de um touro e, levando \u00e0s costas Anupu, chegou ao pal\u00e1cio do fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade). Quando a sua majestade soube do touro ficou encantado e guardou-o no pal\u00e1cio, dando muito tesouros a Anupu que, em seguida, regressou \u00e0 sua terra.<\/p>\n<p>Algum tempo depois o touro aproximou-se da primeira favorita, que estava na cozinha, e disse: \u00abV\u00ea! Ainda estou vivo.\u00bb<\/p>\n<p>Perguntou a favorita: \u00abQuem \u00e9s tu?\u00bb<\/p>\n<p>E ele respondeu: \u00abSou Bata e sei que mandaste derrubar o cedro para o fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade), para te veres livre de mim. Mas ainda estou vivo e sou um touro.\u00bb<\/p>\n<p>Ela ficou aterrada e, foge na primeira oportunidade, quando estava com o fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade), para passar um dia feliz, disse: \u00abAtendes um pedido meu, seja ele qual for?\u00bb<\/p>\n<p>Sua majestade concordou, mas ficou muito aflito quando ela disse que queira comer um peda\u00e7o do f\u00edgado do touro. Ele tinha feito, por\u00e9m uma promessa e, no dia seguinte, decretou um festival com o sacrif\u00edcio do touro. Para a execu\u00e7\u00e3o do triste acto, o fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade) designou um dos seus principais magarefes.<\/p>\n<p>Depois de morto o touro, duas gotas do seu sangue ca\u00edram no ch\u00e3o perto dos umbrais do grande port\u00e3o do fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade). Das gostas de sangue nasceram dois rebentos que bem depressa se transformaram em belas \u00e1rvores. Logo que as pessoas viram essas \u00e1rvores, foram correndo dizer ao fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade). Esse facto foi interpretado como sendo de bom press\u00e1gio. Houve grande regozijo e o fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade) depositou uma oferenda diante das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Pouco depois, o fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade) quis ir ver as \u00e1rvores no seu carro de ouro, acompanhado da sua favorita. Sua majestade partiu no seu carro dourado e chegado ao local sentou-se \u00e0 sombra de uma delas. A favorita, que vinha atr\u00e1s, sentou-se junto da outra.<\/p>\n<p>Mal ela se havia sentado, a \u00e1rvore sussurrou: \u00abTraidora! Sou Bata! Apesar de tudo o que fizeste, ainda estou vivo. Sei exactamente como conseguiste que o fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade) mandasse cortar o cedro por minha causa. E quando me transformei num touro, fizeste com que eu fosse abatido.\u00bb<\/p>\n<p>A favorita esperou uma boa oportunidade. Um dia, quando atendia ao fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade) a servir-lhe vinho e dar-lhe contentamento, ela disse a sua majestade: \u00abFazes qualquer coisa que eu te pedir?\u00bb<\/p>\n<p>Sua majestade disse que sim e ela pediu: \u00abManda derrubar as duas \u00e1rvores e aproveitar a madeira para fazer m\u00f3veis.\u00bb<\/p>\n<p>O fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade) tornou a fazer o que ela lhe pediu e mandou chamar os seus melhores carpinteiros. Enquanto eles trabalhavam, sua majestade e a favorita ficaram observando.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o, uma pequena lasca de madeira saltou de um machado e foi cair na boca da favorita, que logo engoliu involuntariamente e, dentro em pouco, ficou gr\u00e1vida. Enquanto isso, o fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade) tornou todas as provid\u00eancias para que a madeira fosse transformada em belos m\u00f3veis, como ela desejava.<\/p>\n<p>Ao fim de algum tempo, a favorita deu \u00e0 luz um menino e os funcion\u00e1rios foram dar a boa not\u00edcia ao fara\u00f3 (vida, for\u00e7a e sa\u00fade). Sua majestade amou a crian\u00e7a logo desde o princ\u00edpio, deu-lhe uma ama e servos, e honrou-a com a designa\u00e7\u00e3o de vice-rei de Kuch.<\/p>\n<p>Mais tarde, quando o menino cresceu, sua majestade nomeou-o pr\u00edncipe herdeiro do pa\u00eds, e exerceu o cargo durante muitos anos at\u00e9 que sua majestade partiu para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>O novo rei ordenou imediatamente: \u00abReuni todos os meus altos funcion\u00e1rios para que a minha majestade possa dizer tudo o que aconteceu.\u00bb<\/p>\n<p>Na presen\u00e7a deles, e com a mulher ao lado, Bata,pois era ele, contou a sua hist\u00f3ria e eles serviram de ju\u00edzes entre o novo fara\u00f3 e a mulher, com desvantagem para ela. Depois de conseguir a vingan\u00e7a, Bata chamou Anupu \u00e0 corte e fez dele o pr\u00edncipe herdeiro do pa\u00eds. Durante trinta anos Bata governou o Egipto como fara\u00f3 e depois, quando passou para uma vida melhor, Anupu tornou-se rei.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":5,"featured_media":29450,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[365],"tags":[],"class_list":["post-886","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-egito","generate-columns","tablet-grid-50","mobile-grid-100","grid-parent","grid-25","no-featured-image-padding"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.joaoleitao.com\/viagens\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/886","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.joaoleitao.com\/viagens\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.joaoleitao.com\/viagens\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.joaoleitao.com\/viagens\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.joaoleitao.com\/viagens\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=886"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.joaoleitao.com\/viagens\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/886\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.joaoleitao.com\/viagens\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29450"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.joaoleitao.com\/viagens\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=886"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.joaoleitao.com\/viagens\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=886"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.joaoleitao.com\/viagens\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=886"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}